Razões pelas quais nunca serei uma grande cozinheira
No outro dia pus-me a fazer um frango de fricassé, comprei o franguinho e pedi encarecidamente ao senhor do talho que me arranjasse e cortasse aquilo tudinho, para que eu apenas tivesse de empurrar os pedacinhos para dentro da panela e não tivesse de admirar o frango.
Já vos disse de como detesto pensar que estou a comer animais inocentes? E que estou a comer cadáveres de animaizinhos que ainda ontem estavam ali cheios de vida? Pois é. Não vou mentir que até gosto muito de comer um belo bife, mas preferia pensar que um bife era um vegetal.
Continuando com a saga do fricassé, e à parte do molho béchamel ter-me corrido mal para caraças, quando tirei do saco os pedaços de frango para os passar por água, recorrendo a uma pinça de salada pois tocar no cadáver na carne com as mãos é uma coisa que me repugna deixa desconfortável, constatei que ainda tinha vestígios de graúdos miúdos (para mim eram vísceras horríveis).
Ai senhor do talho, porque foste tão mau para mim? Pus de lado a pinça de salada, fui buscar faca e garfo e comecei que nem uma carniceira a despegar restos de rins e coisas yeckkk do resto comestível. E o que me custou! E ao animal, coitado, todo retalhadinho...
Quando a coisa já estava mais a modo limpinho, recorria novamente à pinça de salada para virar a peça e pô-la a lavar debaixo da torneira.
Família cá em casa a jantar e todos disseram que o fricassé estava no ponto. O béchamel lá tinha feito as pazes comigo e o frango, mudo, até estava saboroso. Safei-me, não me safei?
Com a carne sou assim, e com o peixe?
Com o peixe é igual. Nem posso sonhar que tenho uma cabeça de peixe congelada na arca, à serial killer. E prefiro nem saber que a canja de peixe é feita com a cabeça e os olhos do peixe ali a borbulhar. A sogra já sabe como sou e até esconde a cabeça por minha causa! :)
Também nunca me esqueço do gozo parvo do marido, quando certa vez nos Açores ele ia arranjar chicharro. Para que conste o marido fazia pesca submarina nos Açores, e depois ele próprio levava o peixinho já arranjadinho para casa, e é daqueles que tempera a carne com as mãos bem agarradinhas ao cadáver à peça. Quis eu ajudá-lo, e provar que aquela coisa de menina da cidade é mito, e que eu até sou capaz de fazer coisas que ele não sabe.
Vi como ele fazia e pedi-lhe umas luvas para começar a ajudá-lo a tirar a guelra a uma data de chicharrada miúda. O pedido soou estranho e ele viu logo que dali vinha piada, mas correndo o risco de perder um espectáculo, lá me forneceu as luvas.
Chicharro um, aperta de lado, saca guelra, põe de lado, feito!
Chicharro dois, aperta de lado, o peixe abre a boca, olha-me nos olhos, penso que está vivo, que me odeia de morte, não saco guelra, atiro o peixe ao ar, dou um grito e fujo..........
Piadinha para o resto da minha vida!
- Filipe, ia jurar que o peixe estava vivo e que abriu a boca!
- Claro Maria, o peixe nem abriu a boca por causa do movimento que fizeste...é porque estava vivo. A Maria é boa para arranjar chicharro!
Se eu podia ser uma boa cozinheira? Poder podia, mas terei de aderir ao vegetarianismo. Há lá coisa melhor do que maridos que cozinham bem?

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