No princípio era o verbo...

No princípio era o verbo... e depois foi um dicionário inteiro.

Querido Afonso,

quando conheci o teu pai, ele parecia um senhor sério e delicado, incapaz de partir um prato.
Passámos aquele requintado jantar a conversar sobre a vida, e o teu pai fingia gostar de vinho tinto. Esforçava-se também para que daquela boca não saíssem palavras inapropriadas. Hoje sei o tamanho do seu sacrifício.

Ele parecia-me sério, sério, sério até demais. Apenas desconfiei das suas boas intenções quando, à saída do casino quase que lançou a minha carteira para dentro de um vulcão de água, naquela noite fria de ano novo. Se tal tivesse acontecido, hoje não existirias, essa é uma certeza.

Passaram-se vários dias até ao dia em que finalmente conheci o teu pai. Foi naquela manhã em que romanticamente passeávamos de carro e fomos atingidos por outro carro, conduzido por uma mulher parada num stop, que decidiu avançar à nossa passagem. Foi a primeira vez que levei com um airbag na cara...

Foi quase tão romântico quanto o facto de nos termos conhecido casualmente na internet, numa rede social em vias de extinção, através de duas pessoas que o teu pai nunca mais viu na vida, e que na sua ausência adicionaram à sua rede gajas à descarada, mas apenas uma senhora bonita e distinta como a tua mãe, a quem mais tarde o teu pai enviou uma mensagem a desculpar-se pelo abuso, ....e depois outra, e outra, e outra...).

No dia do acidente, o teu pai tentou manter a frieza e a pose de senhor sério, enquanto mastigávamos a carne arrefecida do almoço, mas mais tarde veio a revelar a sua verdadeira natureza, quando o ouvi proferir todo um dicionário de palavrões e insultos à #$%&/ da sorte. Assustei-me a princípio, mas mais tarde regozijei-me porque ninguém vive sem partir a loiça.

Entretanto tu nasceste e ele foi avisado para moderar a usa língua afiadíssima.

E agora que repetes tudo o que dizemos, mas felizmente ainda não repetiste o teu pai... A mamã bate com o braço na porta, doí muito, grita duas asneiras em voz alta, enquanto se afasta para acalmar a dor. (Oiço a tua voz sorridente "médaaaaa!", e de seguida o teu pai triunfante acrescenta: "Ainda dizem que eu falo mal, Afonso"!)

 Felizmente para mim Afonso, só repetiste a última...

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