Memórias de uma Lisboeta - alfaces e tradições!


"Toca o fungagá, toca o Sol e Dó,
Vamos lá, nesta marcha a um fulambó..."

Como alfacinha que sou, aprecio muito o Santo António. Ano após ano, ver as Marchas Populares na televisão era viver o espírito da época festiva sem sair de casa, tal como ver o Carnaval do Brasil pela noite dentro na RTP 1. Era assim daqueles motivos que justificavam que uma criança estivesse acordada até mais tarde e ver gente a dançar e a cantar até-mais-não, apesar do registo repetitivo da coisa e dos olhos já quererem fechar-se, era razão de euforia! Fazia questão de ficar acordada até sucumbir ao último "ó i ó ai".

Certa vez quando deveria ter por volta dos 11 anos, a pedido meu, decidiu a minha mãe finalmente levar-nos a mim e à Marta (as duas mais novas), às Marchas, à Avenida da Liberdade. Mete-mo-nos no autocarro e lá fomos até à Mouraria, e depois fizemos a procissão pela Praça da Figueira, Rossio, para começar pela cauda das Marchas...Adorei aquela noite, apesar do cansaço. 

Lembro-me de ver ao vivo o actor Miguel Guilherme a beber umas cervejolas num bar onde comprámos qualquer coisa. Na altura era aí uns vinte anos mais novo (oops, eu também). Lembro-me de comermos umas bifanas compradas ali na rua, e beber uma aguinha, mas depois...quem disse que fazíamos xixi? Noite de Santos é isto, ter vontade de fazer xixi e ter de aguentar! "Kiki, aguenta! Agora só fazes em casa ou se encontrarmos uma casa de banho", disse a mamã.

Vimos as Marchas, a Avenida da Liberdade irreconhecível com tanta gente, e estava eu ali, a um passo de tocar nos marchantes, nos padrinhos e nas madrinhas, a ouvir as suas vozes a berrar desafinadamente cantigas de rua, a ver o negro dos seus pés descalços e a sonhar..."Um dia também eu vou estar ali." Mas que diabo, Alvalade não tinha marcha, pensei eu! "Porque não nasci na Costa do Castelo, como a minha Avó Lourdes? O Castelo tem uma bem bonita..."

Eventualmente íamos passar a seguir por Alfama mas fomos para casa. Cansaço!!! Euforia!!! E germes!!! Só pensava na quantidade de gente esquisita e meio amalucada que tinha visto, e na pouca higiene de tudo aquilo :) Já na altura conseguia ser bastante séria em relação à higiene! :) 

Mais tarde, com outra das manas a comprar casa em Alfama, conseguimos viver ainda mais o espírito do Santo António. Quando estava naquela casa até ouvia Fados da sua janela, em qualquer altura do ano. Gosto muito de Fado! 

Um dia pretendo mostrar o espírito alfacinha ao Rei, que alfacinha é, se bem que "arraçado" de açoriano cagarro de Santa Maria :), ir com ele ver as Marchas, jantar no Arraial, ouvir Fado e ver uns filmes antigos portugueses. Sim, foi em pequenina que aprendi a gostar do António Silva, do Vasco Santana, da Beatriz Costa, da Milú, do Curado Ribeiro! Bons filmes! Bons tempos! E não eram do meu tempo!

Porque o passado e a cultura do povo é algo que se deve transmitir, de geração em geração! (Excepto touradas...podiam fazer uma festarola qualquer com cavalos e toureiros, mas sem espetar objectos afiados. Se querem brincadeira e manter tradições, inventem umas ventosas, que o máximo que fazem é a depilação ao bovino, depois de retiradas. Sejam criativos. E depois devolvam o touro ao pasto, não o levem para o matadouro!!)

E termino com um:

"Lá vai Lisboa com a saia cor de mar
Cada bairro é um noivo que com ela vai casar!
Lá vai Lisboa com seu arquinho e balão,
Com cantiguinhas na boca e amor no coração!"

Doce ou Travessura? ...Doce! E boas recordações! E muita gente!!! E poucas casas de banho! :) E mudem as touradas!

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